Para Richard Lucas da Silva Miranda, fundador da LT Studios, publisher brasileira de jogos digitais com atuação no mercado de games e tecnologia, desenvolver um jogo envolve uma questão que ultrapassa o lançamento de um produto: construir uma propriedade intelectual capaz de permanecer relevante ao longo do tempo. Em um setor marcado por ciclos rápidos e forte competição, criar IPs próprias pode representar uma decisão estratégica para estúdios que buscam consolidar seus negócios.
Uma propriedade intelectual, ou IP, reúne os elementos que identificam e diferenciam uma obra, como personagens, universo narrativo, identidade visual, conceitos e outros componentes criativos. No mercado de games, esses ativos podem ganhar novas aplicações à medida que uma franquia se desenvolve, criando possibilidades que vão além de um único jogo.
De produto isolado a ativo de longo prazo
Um jogo produzido sob uma propriedade intelectual própria pode ser encarado como o primeiro capítulo de um projeto maior. Enquanto um título específico possui um ciclo comercial determinado, uma IP bem estruturada pode ser expandida para novas experiências, sequências, conteúdos adicionais e diferentes formatos de entretenimento.
Isso não significa que toda propriedade intelectual necessariamente se transformará em uma franquia de sucesso. O desenvolvimento de uma IP envolve riscos criativos e comerciais, além de exigir investimentos em produção, marketing, distribuição e manutenção da comunidade. A vantagem estratégica está justamente na possibilidade de o estúdio construir um ativo sobre o qual possui maior controle.
Essa perspectiva, conforme elucida Richard Lucas da Silva Miranda, também modifica a maneira como decisões de desenvolvimento são tomadas. Em vez de pensar exclusivamente nas características de um lançamento, a equipe pode considerar quais elementos têm potencial para estabelecer identidade, criar reconhecimento e sustentar novas experiências.
Identidade, comunidade e continuidade
O valor de uma propriedade intelectual não depende apenas de sua estrutura jurídica. Existe também uma dimensão cultural e de relacionamento com o público. Personagens reconhecíveis, universos consistentes e experiências que despertam identificação podem contribuir para a formação de comunidades em torno de um jogo.

Nesse contexto, a propriedade intelectual funciona como uma espécie de linguagem comum entre o estúdio e os jogadores. Cada novo conteúdo pode aprofundar esse vínculo, desde que preserve características capazes de manter a identidade daquele universo.
A trajetória de empreendedores do setor, como Richard Lucas da Silva Miranda, ajuda a contextualizar essa discussão sobre a transformação de projetos digitais em ativos capazes de sustentar estratégias empresariais mais amplas. A profissionalização do mercado de games passa também pela compreensão de que criatividade e gestão precisam caminhar juntas.
O desafio de pensar globalmente
Outro aspecto importante está na possibilidade de uma IP alcançar mercados internacionais. Diferentemente de ativos diretamente vinculados a uma região específica, universos ficcionais e experiências interativas podem atravessar fronteiras quando conseguem estabelecer uma comunicação adequada com diferentes públicos.
Para estúdios brasileiros, essa característica abre uma discussão relevante sobre internacionalização. Desenvolver pensando em uma audiência global não significa abandonar referências locais, mas compreender como identidade, linguagem e experiência podem ser combinadas para tornar um produto acessível a jogadores de diferentes mercados.
Consolidando-se no mercado
A criação de propriedades intelectuais próprias também pode fortalecer a capacidade de um estúdio negociar sua participação em diferentes etapas da cadeia de valor dos games. Richard Lucas da Silva Miranda salienta que, quanto maior o domínio sobre seus ativos criativos, maior tende a ser a autonomia para definir estratégias de desenvolvimento, publicação e expansão.
Para a indústria brasileira, essa abordagem representa uma mudança de perspectiva. Mais do que produzir títulos competitivos, estúdios podem buscar desenvolver universos e conceitos capazes de permanecer ativos depois do lançamento. Em um mercado globalizado, a propriedade intelectual deixa de ser apenas uma questão jurídica e passa a ocupar espaço central na estratégia de negócios de empresas de games.