Crescimento da cremação no Brasil reflete mudança nas práticas funerárias das famílias  

Diego Velázquez
By Diego Velázquez 6 Min Read
Tiago Schietti

Sob a perspectiva do empresário do setor cemiterial e funerário, Tiago Oliva Schietti, o crescimento da cremação no Brasil é um dos sinais mais claros de que o comportamento das famílias diante da morte está mudando, em um movimento que combina fatores práticos, financeiros e ambientais e que já reconfigura parte da demanda do mercado funerário nacional.

Segundo dados do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep), atualmente entre 8% e 9% dos falecidos no país passam pelo processo de cremação, e a tendência é de crescimento consistente nos próximos anos. O número de crematórios no Brasil já ultrapassa 130 estabelecimentos, quase o dobro do que existia na virada do século, refletindo uma demanda que cresce de forma sustentada desde então.

Mas o que explica essa mudança em um país historicamente marcado pela tradição do sepultamento? A resposta passa por uma combinação de fatores que vai muito além de preferência religiosa ou cultural.

Redução da burocracia garante maior agilidade em processos administrativos

Diferente do sepultamento tradicional, que exige a compra de um espaço em cemitério e a manutenção contínua de um jazigo, a cremação elimina a necessidade de renovações periódicas e reduz custos de manutenção ao longo dos anos. Esse fator prático tem peso decisivo para famílias que buscam evitar decisões futuras sobre o destino de um túmulo, especialmente em contextos de mobilidade geográfica entre gerações.

Tiago Oliva Schietti, empresário do setor cemiterial e funerário, sinaliza que famílias que optam pela cremação relatam menor carga burocrática no momento da decisão, já que o processo costuma ser mais rápido e simplificado em comparação ao sepultamento convencional. Esse ganho de praticidade tem se tornado um argumento cada vez mais relevante na escolha das famílias brasileiras.

A cremação realmente se tornou uma opção acessível para todas as faixas de renda?

Durante muito tempo, a cremação foi associada a um serviço de custo elevado, considerado exclusivo para famílias de maior poder aquisitivo. Esse cenário mudou: hoje, a prática se mostra acessível a diferentes estratos sociais, com valores que variam conforme a região e o tipo de serviço contratado, mas que frequentemente resultam em economia em relação ao sepultamento tradicional ao longo do tempo.

Tiago Schietti
Tiago Schietti

Essa democratização de acesso explica, em parte, o crescimento da contratação de planos funerários que incluem cremação como opção. Conforme revela Tiago Oliva Schietti, exemplos de planos regionais já registram recordes mensais de adesão, consolidando-se como o tipo de serviço que mais cresce em algumas praças, o que reforça a tese de que o fator financeiro pesa cada vez mais na decisão das famílias.

Como as novas gerações estão moldando a escolha entre cremação e sepultamento tradicional?

Questões ambientais também ganham peso na escolha pela cremação. Ao evitar o uso intensivo de caixões, cimento e produtos químicos como o formol, a prática tende a gerar menor impacto ambiental em comparação ao sepultamento tradicional, argumento que ressoa especialmente entre gerações mais jovens, mais sensíveis a discussões sobre sustentabilidade.

Na avaliação do empresário do setor cemiterial e funerário, Tiago Oliva Schietti, essa mudança de perfil geracional influencia diretamente as decisões tomadas em família, já que filhos e netos participam cada vez mais ativamente do planejamento funerário de pais e avós, trazendo para a conversa critérios que vão além da tradição religiosa predominante em gerações anteriores.

A escassez de espaço urbano como pressão adicional

O crescimento urbano e a escassez de espaço disponível em cemitérios de grandes cidades também colaboram para que mais famílias optem pela cremação, em busca de praticidade e menor dependência de áreas físicas cada vez mais raras e caras em regiões metropolitanas. Esse fator estrutural deve se intensificar conforme a população urbana brasileira continua crescendo nas próximas décadas.

Tiago Oliva Schietti indica que esse conjunto de fatores não substitui completamente o sepultamento tradicional, que segue predominante, especialmente em regiões onde religiosidade e costumes familiares têm forte influência, mas amplia significativamente o leque de opções consideradas pelas famílias brasileiras no momento de planejar uma despedida.

Uma escolha que reflete mudanças mais profundas

O avanço da cremação no Brasil não deve ser interpretado apenas como uma tendência de mercado, mas como um indicador de mudanças culturais mais amplas na forma como as famílias brasileiras lidam com planejamento, finitude e organização financeira. A escolha entre cremação e sepultamento, antes determinada quase exclusivamente por tradição, passou a incorporar critérios práticos, econômicos e ambientais discutidos abertamente entre diferentes gerações de uma mesma família.

Esse movimento, que projeções da consultoria Business Research Insights estimam fazer o mercado global de cremação atingir US$ 5,39 bilhões até 2033, com crescimento anual médio de 5,52%, deve continuar avançando no Brasil nos próximos anos, à medida que mais famílias passam a enxergar o planejamento funerário como parte natural da organização da vida, e não como um tabu a ser evitado.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez.

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