Bitcoin mantém estabilidade diante de decisões sobre juros nos Estados Unidos e de novas discussões regulatórias no mercado de criptomoedas.
O mercado de bitcoin viveu uma das semanas mais tensas dos últimos meses. Entre a terça e a quinta-feira, a criptomoeda foi pressionada por duas frentes simultâneas nos Estados Unidos: a rejeição do Clarity Act no Senado, projeto que criaria regras claras para o setor cripto, e a decisão do Federal Reserve de elevar os juros americanos pela primeira vez desde 2023. Mesmo diante desse duplo obstáculo, o bitcoin conseguiu se manter acima de US$ 75 mil e voltou a subir na quinta e na sexta-feira, sinalizando que parte dos investidores ainda enxerga espaço para uma recuperação em direção aos US$ 80 mil.
Fed eleva juros e mercado cripto reage com cautela
Na quarta-feira, 16 de setembro, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) decidiu, por unanimidade, elevar a taxa básica de juros dos Estados Unidos em um quarto de ponto percentual, levando o intervalo para 3,75% a 4,00% ao ano. Trata-se da primeira alta de juros promovida pelo Fed desde julho de 2023, um movimento que rompe com o ciclo recente de cortes e pegou parte do mercado de surpresa, mesmo com a plataforma de apostas Polymarket já precificando cerca de 89% de chance de aumento horas antes do anúncio.
O que mais pesou sobre os ativos de risco não foi exatamente a alta em si, já esperada pelos investidores, mas o tom do presidente do Fed, Kevin Warsh, e as projeções atualizadas do comitê, que sinalizaram a possibilidade de novas altas à frente. Essa leitura fez as bolsas americanas fecharem em queda e o rendimento dos títulos do Tesouro de dez anos voltar a superar os 5%, encarecendo o custo do dinheiro em toda a economia.
Para o bitcoin, o episódio gerou um dos movimentos mais amplos do ano. A criptomoeda oscilou de forma muito mais intensa do que as ações ao longo das duas sessões que cercaram a decisão do Fed, evidenciando como o mercado cripto ainda carrega uma volatilidade bem maior diante de eventos macroeconômicos relevantes. Ainda assim, já na quinta-feira parte da tensão começou a ceder, com o rendimento dos títulos recuando e sinais de arrefecimento nas tensões no Oriente Médio ajudando o apetite por risco a melhorar globalmente.
Analistas ouvidos por veículos internacionais destacaram que a liquidez do bitcoin depende menos do tamanho isolado do balanço do Fed e mais de como as políticas monetárias efetivamente chegam ao sistema financeiro. Essa leitura ajuda a explicar por que, apesar do cenário de juros mais altos, o ativo não sofreu uma liquidação generalizada como a vista em ciclos de aperto anteriores.
Rejeição do Clarity Act no Senado pesa sobre o setor
Um dia antes da decisão do Fed, na terça-feira, 15 de setembro, o Senado americano rejeitou a moção de encerramento de debate sobre o Digital Asset Market Clarity Act, projeto que estabeleceria a estrutura regulatória para o mercado de criptoativos nos Estados Unidos. O placar final foi de 49 votos a favor e 50 contra, distante dos 60 necessários para levar o texto ao plenário. A proposta precisava do apoio de ao menos sete democratas, que resistiram principalmente por causa de exigências mais rígidas sobre conflitos de interesse ligados a participações pessoais em criptomoedas de autoridades públicas.
A reação imediata do mercado foi negativa. O bitcoin chegou a cair cerca de 4% no dia, recuando para a casa dos US$ 75 mil, enquanto o ether registrou queda ainda mais acentuada, de mais de 5%. Ações de empresas ligadas ao setor cripto, como a Coinbase, também sofreram forte pressão de venda na sessão. Na plataforma Polymarket, a probabilidade atribuída à aprovação do Clarity Act ainda em 2026 despencou para menos de 10%.
Apesar do resultado desfavorável, algumas vozes do setor cripto minimizaram o impacto de longo prazo. Executivos de empresas ligadas a bitcoin, como o CEO da Strive, argumentaram que a falta de uma legislação específica não muda o fato de que o ativo já possui, na prática, razoável clareza regulatória nos Estados Unidos, já que a CFTC o trata como commodity, a Receita americana como propriedade e a SEC já aprovou produtos financeiros baseados em bitcoin à vista.
Com o impasse no Senado, o caminho regulatório mais próximo para o mercado cripto americano em 2026 volta a depender de normas administrativas da SEC e da CFTC, e não de uma lei aprovada pelo Congresso. Entidades do setor classificaram o resultado como um recuo temporário, e não uma derrota definitiva, reafirmando a intenção de retomar as negociações em busca de uma nova versão do projeto.
Bitcoin busca recuperação e mira os US$ 78 mil
Passada a turbulência causada pelos dois eventos, o bitcoin mostrou sinais claros de resiliência ao longo da quinta e da sexta-feira. Na manhã de quinta, 17 de setembro, a criptomoeda era negociada perto de US$ 76,3 mil, avançando cerca de 1% em 24 horas, mesmo após a sequência de notícias negativas dos dias anteriores. Já na sexta, 18 de setembro, o ativo voltou a subir mais de 2%, superando novamente a marca dos US$ 78 mil.
Para analistas de mercado, a faixa entre US$ 77 mil e US$ 78 mil se tornou o principal ponto de observação para saber se o movimento recente é de fato o início de uma recuperação consistente. O suporte imediato ficou estabelecido entre US$ 75,5 mil e US$ 76 mil, com um segundo patamar de defesa perto de US$ 74 mil. Do lado da resistência, a recuperação de US$ 77 mil seria o primeiro sinal técnico de força, abrindo caminho para uma nova tentativa em direção aos US$ 80 mil.
A gestora Grayscale chegou a afirmar que o bitcoin dificilmente seria afetado de forma duradoura pela alta de juros do Fed, já que a demanda estrutural pelo ativo, vinda de investidores institucionais e de empresas com reservas em cripto, tende a superar o ruído de curto prazo gerado por decisões de política monetária. Essa avaliação ajuda a contextualizar por que, apesar de dois eventos negativos em sequência, o mercado não sofreu uma queda mais profunda e prolongada.
A semana também deixou um alerta sobre o apetite por operações alavancadas no setor. Nas 24 horas seguintes à rejeição do Clarity Act, cerca de 86,8 mil traders tiveram posições liquidadas à força, um lembrete de que o mercado cripto ainda concentra parte relevante de seu volume em operações de alto risco, sensíveis a qualquer notícia inesperada vinda de Washington.
A combinação entre juros mais altos nos Estados Unidos e a falta de uma legislação cripto definida deve continuar no radar dos investidores nas próximas semanas. Ainda assim, a capacidade do bitcoin de se manter acima de US$ 75 mil durante o pior momento da semana é vista por parte do mercado como um sinal de amadurecimento do ativo, cada vez menos dependente de um único evento para sustentar seu preço.
Fontes:
- https://exame.com/future-of-money/bitcoin-hoje-16-09-2026/
- https://exame.com/future-of-money/projeto-de-lei-que-regula-os-criptoativos-e-rejeitado-no-senado-dos-eua/
- https://www.coindesk.com/business/2026/09/15/live-updates-bitcoin-slides-from-nearly-usd80-000-as-senate-votes-on-clarity-act
- https://mercadohoje.uai.com.br/2026/09/17/bitcoin-hoje-17-09-2026-veja-as-informacoes-da-criptomoeda/
- https://nexo.com/blog/markets-today-september-17