MARA Holdings volta a comprar bitcoin após seis meses de vendas e reacende debate sobre mineração

Oscar Caldervale
By Oscar Caldervale 8 Min Read

MARA Holdings retoma as compras de bitcoin após seis meses, movimentando o mercado e reacendendo discussões sobre estratégias de tesouraria e o futuro da mineração de criptomoedas.

A MARA Holdings, maior mineradora de bitcoin do mundo em capacidade instalada, voltou a comprar a criptomoeda depois de um longo período dedicado quase exclusivamente a vender parte de suas reservas. A operação, confirmada por dados on chain e reportada por diferentes veículos especializados na quarta-feira, 16 de setembro, chama atenção não apenas pelo valor envolvido, mas por representar uma mudança de postura em um momento no qual a atividade de mineração de bitcoin enfrenta uma das fases mais apertadas dos últimos anos em termos de rentabilidade.

MARA retoma acumulação depois de seis meses vendendo bitcoin

Segundo dados da Arkham Intelligence e da plataforma de monitoramento on chain Lookonchain, a MARA comprou 1.292 bitcoins por cerca de US$ 98,64 milhões, a um preço médio de US$ 76.347 por moeda. A operação foi realizada por meio da mesa de balcão da FalconX, corretora especializada em grandes volumes para investidores institucionais, e apareceu na blockchain antes mesmo de qualquer comunicado oficial da empresa.

O movimento chama atenção justamente por marcar o fim de um período de seis meses em que a mineradora se comportou, na prática, como vendedora líquida de bitcoin. Ao longo do primeiro semestre de 2026, a MARA vendeu mais de 20,8 mil bitcoins, movimentação que somou cerca de US$ 1,5 bilhão e que reduziu suas reservas de aproximadamente 53,8 mil moedas, no fim de 2025, para pouco mais de 35 mil no meio deste ano. Parte relevante dos recursos obtidos com essas vendas foi direcionada para a construção de data centers voltados a computação de alto desempenho e inteligência artificial, além do pagamento antecipado de dívidas conversíveis com vencimento em 2030.

Com a compra de setembro, a MARA passa a deter novamente cerca de 35,6 mil bitcoins, patrimônio avaliado perto de US$ 2,7 bilhões aos preços atuais. Esse volume mantém a empresa entre as maiores detentoras corporativas de bitcoin do mundo, disputando com a Strategy, de Michael Saylor, a posição de segunda maior tesouraria corporativa em bitcoin dependendo da variação do preço do ativo a cada semana. Vale lembrar que essa não foi a primeira sinalização de retomada das compras: em junho, a companhia já havia adquirido discretamente mil bitcoins pelo mesmo canal com a FalconX, o que sugere que a fase de vendas mais agressivas pode estar chegando ao fim.

Por que a mineração de bitcoin enfrenta pressão financeira

A retomada das compras pela MARA acontece justamente em um momento delicado para o setor de mineração como um todo. Levantamento da consultoria CoinShares mostrou que o custo médio para minerar um único bitcoin entre as empresas listadas em bolsa subiu para cerca de US$ 75,5 mil no segundo trimestre de 2026. O problema é que, no mesmo período, o preço do bitcoin encerrou a fase em patamares bem mais baixos, o que empurrou a rentabilidade de boa parte da indústria de mineração para abaixo do ponto de equilíbrio.

Outro indicador que ajuda a entender a dificuldade do setor é o chamado hashprice, métrica que mede a receita gerada por cada unidade de poder computacional dedicado à mineração. Em junho, esse indicador caiu para uma mínima histórica de US$ 27,7 por petahash por segundo ao dia, reflexo direto do aumento da concorrência entre mineradoras e da dificuldade crescente imposta pela própria rede do bitcoin. O cenário levou até mesmo empresas de peso a recuar: a Core Scientific chegou a pagar US$ 41,9 milhões apenas para cancelar um pedido de equipamentos equivalente a 15 exahashes por segundo, enquanto mineradoras menores iniciaram processos de encerramento de suas operações.

Diante desse contexto, muitas mineradoras, incluindo a própria MARA, passaram a diversificar suas fontes de receita, apostando em infraestrutura de inteligência artificial e computação de alto desempenho como forma de reduzir a dependência exclusiva da atividade de mineração de bitcoin. Essa combinação entre mineração tradicional e serviços de tecnologia tem sido chamada por analistas de modelo híbrido, e a MARA é hoje uma das empresas que mais avançou nessa direção, sem, no entanto, abandonar o bitcoin como parte central de sua estratégia de tesouraria.

O que a operação sinaliza para o mercado

Para analistas do setor, o fato de uma mineradora com histórico recente de vendas agressivas voltar a comprar bitcoin funciona como um indicador relevante sobre a percepção de valor do ativo entre players que conhecem de perto os custos reais de produção. Diferentemente de investidores que compram bitcoin apenas com base em expectativas de valorização, mineradoras como a MARA têm acesso direto a informações sobre custo de mineração, o que torna decisões desse tipo especialmente observadas por quem acompanha o mercado.

A operação também acontece em paralelo a outro movimento relevante no mesmo período: a empresa ProCap Financial vendeu 50 bitcoins com desconto de 22% em relação ao valor patrimonial líquido para financiar a recompra de ações próprias, reduzindo o número de papéis em circulação. Episódios como esse mostram que, mesmo dentro do universo de empresas com bitcoin em caixa, as estratégias variam bastante, alternando entre compra, venda e recompra de ações conforme a necessidade específica de cada companhia.

Ainda assim, o saldo da semana pesa mais para o lado da acumulação do que para o da liquidação, com diferentes empresas ligadas ao setor cripto reforçando suas posições em bitcoin mesmo em um cenário de pressão sobre a rentabilidade da mineração. Isso reforça uma tendência observada ao longo de 2026: cada vez mais companhias tratam o bitcoin não apenas como resultado natural da atividade de mineração, mas como um ativo estratégico de balanço, gerido de forma ativa conforme as condições de mercado e de custo de capital de cada momento.

Analistas recomendam cautela ao interpretar movimentos isolados de compra ou venda por parte de empresas como sinal definitivo de tendência de preço, já que decisões desse tipo costumam refletir necessidades específicas de caixa, dívida e planejamento de cada companhia, e não necessariamente uma leitura direta sobre para onde o mercado deve caminhar. Operações com bitcoin envolvem volatilidade relevante, e o comportamento de grandes players do setor deve ser acompanhado como parte do contexto mais amplo do mercado, não como recomendação de investimento.

Fontes:

Compartilhe este artigo
Deixem um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *