Na avaliação de Elmar Varjão, engenheiro civil com mais de 30 anos de experiência no setor, a escassez de profissionais mudou o papel das construtoras na formação de quem vai executar as obras do país. O cenário é amplo: segundo a Pesquisa Global de Escassez de Talentos, da ManpowerGroup, oito em cada dez empregadores brasileiros têm dificuldade para preencher vagas, e na construção o problema alcança do servente ao engenheiro.
A Câmara Brasileira da Indústria da Construção, a CBIC, aponta que o país forma cerca de seis engenheiros por ano para cada 100 mil habitantes, enquanto Estados Unidos, China e Japão chegam a algo próximo de 35. A entidade registra também queda no interesse dos jovens pelas carreiras do setor, incluindo a engenharia civil.
Diante desse quadro, esperar que o mercado entregue profissionais prontos deixou de ser uma estratégia viável. As práticas a seguir mostram como a formação de talentos passa a fazer parte da gestão da obra.
Tratar a obra como lugar de aprendizado estruturado
A forma mais direta de desenvolver profissionais é aproveitar o que o canteiro já ensina, mas de maneira organizada. Uma concretagem de grande volume, a montagem de uma estrutura metálica ou a execução de um piso industrial reúnem decisões técnicas que nenhuma sala de aula reproduz por inteiro.
O que diferencia aprendizado de mera exposição é o método. Quando o engenheiro recém-formado acompanha essas etapas com roteiro definido, registra as decisões tomadas e discute os resultados com quem conduziu o serviço, a experiência vira conhecimento transferível para a próxima obra.
Aproximar quem sabe de quem está chegando
Grande parte do saber de uma construtora não está em manuais. Está na experiência de engenheiros e encarregados que já enfrentaram solos instáveis, prazos apertados e interferências inesperadas.
Elmar Varjão observa que esse conhecimento se perde quando profissionais experientes deixam a empresa sem tê-lo compartilhado. Programas de mentoria, em que cada jovem engenheiro tem um responsável sênior de referência, reduzem esse risco e encurtam o tempo até que o profissional assuma frentes de maior responsabilidade.
Abrir caminhos de crescimento para quem já está na obra
Na mão de obra operacional, a escassez se combate também com perspectiva de carreira. Um ajudante que vê a possibilidade de se tornar oficial, depois encarregado, tem motivo concreto para investir em qualificação e permanecer no setor.
A CBIC destaca parcerias com SESI, SENAI e órgãos públicos para capacitar e requalificar trabalhadores no próprio canteiro. Essas iniciativas ganham escala quando a construtora vincula a formação a uma trilha clara de progressão, com critérios conhecidos por todos.
Usar a tecnologia como aliada da formação
A digitalização muda o perfil de competências exigido. Modelos em BIM, sistemas de controle de obra e ferramentas de planejamento passam a fazer parte da rotina de engenheiros, técnicos e encarregados.
Para Elmar Varjão, a tecnologia tem ainda um efeito menos óbvio: torna a obra mais atraente para as novas gerações. Jovens que cresceram em ambiente digital se interessam mais por um canteiro que usa modelos tridimensionais e dados em tempo real do que por um que depende apenas de pranchas e planilhas. A industrialização, com pré-moldados e estruturas metálicas, também reduz a dependência de funções artesanais difíceis de preencher.
Formar gente como parte do resultado
Uma construtora que forma profissionais deixa de competir apenas por quem já está pronto no mercado e passa a construir sua própria capacidade de execução. Isso afeta diretamente a qualidade, a segurança e a produtividade das obras.
Elmar Varjão considera que, num setor em que a falta de profissionais limita o ritmo dos investimentos em infraestrutura, desenvolver talentos é também uma contribuição ao desenvolvimento econômico. Cada engenheiro ou encarregado bem formado amplia a capacidade do país de transformar projetos em obras concluídas.